No texto anterior a história de Raquel foi abordado e podemos identificar que a maternidade foi o ídolo dessa mulher. Em Gn. 30,1 é apontado uma das consequências dessa idolatria: inveja. “Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse à Jacó: dê-me filhos ou morrerei!”
Os desdobramentos provocados pela
idolatria são vários e perigosos. A inveja é um deles. Um abismo (pecado) chama
outro. Quando se constrói um ídolo para si e ainda não o possui, a obsessão
começa a fazer parte da vida da pessoa. A cobiça pelo objeto de adoração é tanta
que ela cai no buraco de algumas obras da carne, a saber: idolatria, discórdia,
ódio, ciúmes, ira, inveja (Gl.5,19-21).
Uma pessoa obcecada por algo,
perde a visão espiritual e passa a andar conforme o que ela vê. As circunstâncias
a domina a levando a caminhar em círculos: quanto mais se pensa sobre o desejo
mais anseia por ele, quanto mais anseia mais pensa. É um ciclo vicioso que
provoca mais e mais cegueira espiritual no idólatra.
A vida de alguém que nutre um
ídolo escondido no coração se torna insuportável quando ele é confrontado com a
vida de outro que possui o que ele mais deseja. Raquel era confrontada pela
fertilidade de Lia, sua irmã. Isso desencadeou a inveja, discórdia, ciúme.
Essas obras da carne se fortalecem de tal forma que consolida ainda mais a
idolatria. Isso destrói a vida espiritual de uma pessoa. O relacionamento com
Deus se torna completamente frágil porque mais cedo ou mais tarde, o idólatra
se voltará contra Ele. A resposta de Jacó à Raquel vai nessa direção. Em Gn.
30.2, ele responde: “por acaso estou no lugar de Deus que a impediu de ter
filhos?” Quem é o responsável pela infertilidade de Raquel segundo o marido
dela? Deus.
Isso acontece diariamente até os
dias de hoje. Deseja-se muito algo, torna-se obcecado por ele e Deus passa a
ser o responsável direto pelo infortúnio da não realização do desejo. Quando se
chega ponto, o relacionamento com Deus se deteriora rapidamente, tornando a
pessoa ainda mais idólatra. As consequências são desastrosas.
O ser humano sempre teve que
domar a sua tendência a idolatria, controlar o ímpeto de criar falsos deuses,
mas, atualmente tem sido muito mais difícil enfrentar tudo isso. Ao se deparar
nas muitas igrejas que exaltam o triunfalismo, o evangelho coach, as mensagens
de autoajuda e a confissão positiva, as pessoas tendem a acreditar que elas são
o centro e Deus tem a obrigação de providenciar tudo o que elas desejam.
Esse tipo de evangelho fortalece
o Eu e promove a idolatria. Tira Deus do centro e insere o homem. É um
evangelho antropocêntrico onde Deus é o gênio da lâmpada. Ao abandonar a
mensagem cristocêntrica, cai-se na mentira de que é possível encontrar
felicidade em algo ou alguém que não Deus, e essa é a ilusão da qual flui toda
a idolatria.
Toda pessoa que vive em idolatria
em algum momento se tornará um grande invejoso. Todo invejoso se compromete com
a discórdia. A discórdia gera a rebeldia que é feitiçaria. A pessoa tanto pode se
rebelar contra o seu próximo quanto contra a Deus. Em 1Sm. 15,23 diz: “pois o
rebelde é como pecado de feitiçaria...” A idolatria pode levar à feitiçaria
(rebeldia). A pessoa para ter o que o seu coração mais deseja pode se rebelar
contra os mandamentos estabelecidos por Deus. Além de idólatra, se torna
feiticeiro.
Quantas implicações!!
Por isso vigiemos o nosso
coração, peçamos à Deus para sondar o que há nele (Sl.139,23-24). Que a Palavra
de Deus possa ser lâmpadas para os nossos pés (Sl.119,105) e que possamos
ansiar por Deus de todo o nosso coração (Sl.42,1).