domingo, 12 de dezembro de 2021

Esconderijo do Altíssimo

 O Salmo 91 é um dos mais famosos se não for o mais dentre os outros 149 Salmos. É comum vermos a Bíblia aberta nele nas casas das pessoas ou ele colado na porta de entrada. É o famoso Salmo da proteção. Alguns pensam que é só recitá-lo e as promessas contidas nele passam a vigorar automaticamente em suas vidas.

Vamos meditar com mais atenção no versículo 1 desse Salmos? “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” Há uma promessa: descanso na sombra do Onipotente. Para quem é a promessa? Para os que habitam no esconderijo do Altíssimo.

Todas as promessas contidas no Salmo 91 são somente para os que habitam no esconderijo de Deus. Não é para qualquer pessoa. É para um grupo específico. O que é habitar no esconderijo do Altíssimo? Vamos por parte: habitar significa morar, ter como residência fixa, viver em. O termo viver para esse contexto de Salmo é o mais adequado.

Diante dos significados expostos entendemos que somente aqueles que vivem na presença de Deus que alcançarão as promessas citadas no Salmo 91. A prioridade de nossas vidas deve ser o de estar/viver na Presença de Deus constantemente. É ter um relacionamento diário com Ele através da oração. É obedecê-lo. É negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus (Mc.8,34). É permitir ser guiado pelo Espírito Santo.

O apóstolo Paulo escreveu: “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm.8,14). Se são filhos de Deus logo as promessas do Salmo 91 são válidas para eles já que Deus é um Pai bondoso. “...Ora se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem” (Mt.7,11)

Se um filho obediente, fiel e leal com certeza será contemplando com os livramentos contidos nesse Salmo. Sempre lembrando que tudo é de acordo com a soberania de Deus. Por que é Ele que conhece os planos que tem para cada um (Jr.29,11). Porque os pensamentos Dele não são os nossos pensamentos, nem os nossos caminhos os caminhos Dele (Is.55,8-10).

Então de acordo com a sua soberana vontade, Ele cumpre as promessas nas vidas de seus filhos fiéis que se dispuseram a viver em sua Presença. Quando você for ler o Salmo 91 na esperança de obter aquelas bençãos citadas, faça um auto exame.

Veja se você pertence ao grupo dos que vivem na Presença de Deus. Olhe para a sua vida e verifique se há um relacionamento com Deus genuinamente. Não faça do Salmo 91 um amuleto gospel pois não irá funcionar. O que funciona é estarmos sempre diante de Deus, obedencedo-O, sendo fiel e assim alcançando suas bençãos por sua misericórdia.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Trajes reais

 

Hoje falaremos sobre os versículos 1 a 3 do capítulo 5 do livro de Ester:

“Três dias depois, Ester vestiu seus trajes de rainha e colocou-se no pátio interno do palácio, em frente do salão do rei. O rei estava no trono de frente para a entrada. Quando viu a rainha Ester ali no pátio, teve misericórdia dela e estendeu-lhe o cetro de ouro que tinha na mão. Ester aproxima-se e tocou a ponta do cetro. E o rei lhe perguntou: ‘que há, rainha Ester? Qual é o seu pedido? Mesmo que seja a metade do reino, lhe será dado.’

Ester estava numa situação extremamente difícil: pressionada com o decreto que autorizava o extermínio do seu povo e ao mesmo tempo tendo que ir contra a lei que dizia que ninguém poderia se aproximar do rei sem ter sido convocado a presença dele.

O que aconteceu à Ester, acontece conosco, guardada as devidas proporções. Muitas vezes nos sentimos completamente sem saída, acreditando que realmente é o fim.  O primeiro passo que Ester deu foi fazer um jejum (Ester 4,16), depois vestiu seu traje de rainha e foi se colocar na presença do rei. O jejum é a quebra do querer da carne, é a subjugação do conforto e prazer. É a negação do Eu.

Primeiramente precisamos negar a nós mesmo, subjugar a nossa carne e aí sim estaremos aptos a vestirmos as vestes reais. Assumir a nossa identidade de filhos fiéis do Deus vivo.

Em Ap. 19,8 é dito “para vestir-se foi-lhe dada linho fino, brilhante e pleno”. O linho fino são os atos justos dos santos”. Esse versículo está se referindo a noiva de Cristo mencionada no versículo 7 do mesmo capítulo.

Como noiva de Cristo é imprescindível que vivamos em santidade e as boas obras (os bordados da vestimenta de linho). Que nos é possível através do Espírito Santo. Qual o significado do bordado? Originalmente há uma peça lisa de tecido sem nada sobre ela. Mais tarde, algo é bordado nela com agulhas, e, mediante essa obra, o tecido original e o que foi nela bordado com agulhas se tornam um apenas. Isso quer dizer que, quando o Espírito de Deus trabalha em nós, Ele incorpora Cristo em nós, isto é, o bordado.

Assim sendo podemos nos aproximar do Rei [Jesus] em meio a nossa aflição e fazer o nosso pedido de libertação da situação esmagadora que muitas vezes vivenciamos. Para escutar Dele: “qual é o seu pedido?” Precisamos estar no mínimo com o espírito quebrantado e coração contrito (Sl. 51,17).

Façamos como Ester fez: neguemos a nós mesmo subjugando a nossa carne, amemos à Cristo de todo o nosso coração, sendo um com Ele [vestes] e nos apresentemos diante Dele com a expectativa que Ele cumprirá em nós a sua boa, perfeita e agradável vontade (Rm.12,2).

domingo, 28 de novembro de 2021

Tendo prazer em Deus

 Depois de alguns textos sobre a maldição da idolatria, é necessário que se mostre o caminho de saída da vida idólatra. Será apresentado um fichamento do capítulo doze do livro “Ídolos do coração” de Elyse Fitzpatrick. Esse capítulo por título “Tendo prazer em Deus” aponta um caminho seguro para guardarmos nosso coração de ídolos.

Em 2 Sm. 6, 14-16 diz: “E Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor [...] Assim Davi e toda a casa de Israel subiam trazendo a arca do Senhor com júbilo e ao som de trombeta [...] quando [Mical] viu o rei Davi saltando e dançando diante do Senhor, ela o desprezou em seu coração”.

O rei Davi, um homem seguindo o coração de Deus (1 Sm. 13,14), dançou diante do Senhor de todo o coração. Era precioso para ele estar próximo da presença de Deus, e ele demonstrou sua grande alegria por meio de suas ações. Estava cheio “das expressões mais intensas possíveis de alegria: dançou diante do Senhor com todas as suas forças; saltou de alegria [...] Era uma expressão natural de seu grande regozijo e da exultação de sua mente.” Davi estava cheio de alegria e prazer porque ele e sua nação voltariam a experimentar a proximidade de Deus.

O profeta Malaquias disse: “Vós saireis e saltareis como bezerro soltos no curral (Ml.4,2). Você alguma vez foi movido pela glória de Deus, por sua bondade, santidade, gentileza e misericórdia, a ponto de seu coração explodir de louvor? Pode imaginar-se enlevado a tal ponto de ter vontade de dançar? Davi sabia como era “[saltar] como bezerros soltos no curral.”

Um caminho para a verdadeira adoração à Deus é a reflexão da nossa adoção. Por que Deus nos adotou? De acordo com Pedro, foi para que anunciássemos “as grandezas daqueles que [nos] chamou das trevas para sua maravilhosa luz” (1Pe.2,9). Você tem consciência de que foi chamado com o propósito claro de proclamar as grandezas de Cristo? Seu coração transborda de louvor pela graça e benevolência do Pai ao adotá-lo?

Uma forma de saber se seu coração está repleto desse tipo de louvor é prestar atenção em suas palavras. O que você louva? Que espécie de palavra transborda seu coração? É difícil imaginar um coração repleto de louvor se a boca não o proclama. “Pois a boca fala do que o coração está cheio.” (Mt.12,34).

Seu coração está cheio de ternos pensamentos acerca da bondade de Deus? Então sua boca também estará. Que a coincidência da bondade de Deus e da Graça de Deus nos cative a ponto de nossas emoções serem aquecidas e nosso homem exterior (nossa boca, nossas mãos e nosso corpo) refletirem grande amor.

Como seremos capazes de nos despir da adoração a outros deuses se não formos completamente cativados pela adoração ao Deus verdadeiro? A melhor forma de deter a idolatria é aprender a ter grande prazer e alegria em Deus. Nosso coração só se desapegará de seus ídolos pelo poder de um amor mais forte, o poder do amor do Pai por nós no evangelho.

Nós somos mornos em nosso louvor porque não provamos a doce alegria da comunhão com Deus ou porque nos esquecemos do regozijo que experimentamos quando descobrimos que Jesus era amigo de pecadores.

Jesus resistiu à tentação de adorar Satanás porque conhecia o prazer do sorriso de seu Pai. Um dos passos para vencer a idolatria é aumentar nossa compreensão de prazer de sermos amados pelo ser mais cativante de toda a criação. A adoração mais vigorosa acontecerá no meio daqueles cuja mente contempla sem pressa a luz da verdade e cujo coração, suas emoções, está tão próximo do fogo de Deus quanto é possível chegar sem ser consumido.

Como o louvar a Deus? A verdadeira adoração deve envolver seu corpo e seu coração, que abrange sua mente, suas afeições e sua volição (vontade). Nosso ser exterior, o corpo deve participar de algum modo: ao falar, cantar ou gritar; ficar em pé, ajoelhar-se ou curvar-se (permanecer sentado nunca é a norma de adoração nas Escrituras); com a cabeça curvada ou levantada, com as mãos erguidas ou batendo palmas. Simples posturas exteriores não são antídoto para louvor insincero (Mc.7,6-7), mas as Escrituras sempre associam uma atividade do corpo ao coração cativado pela Glória de Deus.

O alegre louvor nasce da meditação na misericórdia, graça, grandeza, justiça e bondade de Deus. Nas palavras de John Piper, “Deus certamente é mais glorificado quando nos deleitamos em sua grandeza do que quando somos tão indiferentes a ela, a ponto de mal sentirmos coisa alguma.” Se você tem dificuldade em “deleitar-se na grandeza de Deus” ou em “transbordar gratidão”, talvez seja porque ele não ocupa seus pensamentos e desejos. Com que frequência você medita sobre a misericórdia ou bondade divina? Se anseia adorar de todo coração, pode despertar suas emoções ao meditar no bondoso amor dele por você. Revestir-se de adoração pura inclui meditar na bondade dele.

Agora reflita sobre a graça de Deus em sua vida: Quem Ele é para você? O que Ele fez por você? De que maneira Ele o amou? A lista das bençãos concedidas ao crente apresentada por Paulo em Ef. 1, 3-14 deve tocá-lo a ponto de fazer seu coração irromper em louvor por todos os benefícios que você recebeu no Evangelho. Percebe como Deus o tratou com bondade? Ao aproximar-se dele, exultando com essa bondade, você experimentará a renovação da alegria concedida somente aos verdadeiros adoradores. Não tenha medo de se regozijar em Deus por aquilo que Ele fez. Sua natureza nos é revelada principalmente por meio daquilo que Ele fez por nós.

Ao procurar despir-se da adoração idólatra e substituí-la por obediência, você terá de revestir-se de um coração que valoriza, ama, celebra e se alegra na beleza, bondade, santidade e majestade de seu Rei. Todos os outros deuses e suas promessas incertas ficarão pálidas quando comparadas com a grandeza e a Glória do Senhor.

Esse texto é um incentivo a revestir-se da verdadeira adoração. Além da alegria que toma conta de seus louvores, essa adoração também deve mantê-lo e uma atitude de grato amor por seu próximo. Deus procura adoradores (Jo.4,23) porque seu plano é nos transformar naqueles que experimentam a alegria indescritível da adoração inteiramente rendida a sua pessoa e a sua presença do amor interno e da reverência cheia de admiração por elas e do deslumbramento maravilhoso com elas. Que em todas as nossas ações procuremos nos sujeitar humildemente a obra de Deus e adorá-lo em fervor, refletindo para Ele e para o mundo ao nosso redor a excelência de sua graça gloriosa.


FITZPATRICK, Elyse. Tendo prazer em Deus InFITZPATRICK, Elyse. Ídolos do coração: aprendendo desejar somente a Deus. 2. ed. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2017. p. 219-235.

 

sábado, 20 de novembro de 2021

Ídolos do coração : quando a idolatria é incentivada

 Estamos há três domingo falando sobre idolatria e esse texto será o quarto sobre em tema. Usaremos como texto-base Gn. 35,17, “E, quando padecia muito, tentando dar à luz, a parteira lhes disse: “não tenha medo, pois você ainda terá outro menino’ (NVI).

Para maior entendimento leia os textos publicados anteriormente, principalmente o do dia 07 de novembro. Vamos destacar esse texto de Gn. 35,17 em outras versões da Bíblia:

- Bíblia Judaica Completa: “Enquanto ela [Raquel], sofria com as dores do parto, a parteira lhe disse: “não se preocupe, este também é filho para você”.

- Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH): “Quando as dores estavam no ponto mais forte, a parteira disse: - não tenha medo, você vai ter outro filho homem.”

-Almeida Revista e Atualizada (ARA): “Em meios as dores de parto, disse-lhe a parteira: não temas, pois ainda terás este filho.”

As quatro versões apontam o destaque que a parteira dá ao filho (ao nascimento) do menino, como forma de consolo, ânimo, motivação para Raquel.

Dentre essas versões a NVI (nova Versão Internacional) e a NTLH dão margem para uma interpretação diferente das outras duas: um terceiro filho: “você ainda terá outro menino” e “você vai ter outro filho homem.” Em parto normal, sabemos que é a cabeça que sai primeiro, logo a parteira não poderia ver o gênero do bebê e como é utilizado o verbo no tempo futuro “você terá”, entendemos que se trata de um terceiro filho já que ela (parteira) ainda estava realizando o parto e empregou o verbo no futuro. Não se tratava do bebê daquele parto (Benjamim) mas sim de um futuro bebê: o terceiro filho.

É a partir desse entendimento que o texto de hoje vai abordar o incentivo a idolatria. Como podemos ver, isso acontece de forma despretensiosa com boa intenção. O que há de errado falar para uma mulher que ela terá outro filho? Nenhum mal, aparentemente. Só que no caso de Raquel esse incentivo, essa palavra motivacional era péssima. Era um conselho, uma ideia para ela continuar na idolatria da maternidade.

Quantas vezes vemos isso nos púlpitos? Diversas! Esse incentivo a idolatria vem em forma de mensagens de autoajuda. Frases motivacionais. Palavras proféticas. Ao centrar as pregações nas vontades humanas e suas realizações aqui na terra, o risco que se corre é esse: motivar alguém a continuar idólatra.

Declaro que você terá sua casa própria. Afinal Deus nos fez cabeça e não cauda! (distorção completa de Dt.28,13) os pregadores param na primeira parte do versículo esquecendo de forma proposital a segunda parte que diz: “se obedecerem aos mandamentos do Senhor”. Quais mandamentos? Os listados em Ex.20 e para o nosso tema os explicitados nos versículos 3 “não terás outros deuses além de mim”, 4 “não farás para ti nenhum ídolo...”, 5 “não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás cultos.”

Ora, se há um ídolo no coração no coração logo há quebra de três mandamentos e assim sendo Dt.28,13 não se cumprirá na vida dessa pessoa.

É pregado isso nas igrejas seja em cultos com presença física ou online? Na maioria das vezes, não! Com mensagem que mais parecem palestras motivacionais, os cristãos não amadurecendo (1Co.3,2; Hb.5,13).

Ao não amadurecer nem percebem que estão na idolatria e continuam alimentando os ídolos escondidos no coração. Entram num ciclo vicioso: mensagens antropocêntricas que alimentam os ídolos, tornando-as mais idólatras e cada vez mais desejando mensagens antropocêntricas. Essas pregações garantem ao idólatra, paz e conforto dando-lhe certeza que está no caminho certo.

Eis o perigo de pastores e mestres não confrontarem os membros de suas igrejas com o verdadeiro evangelho. Aquele que só foco em Cristo e na eternidade (Fp.3,12-14).

Como a própria liderança só mantém o foco na vida terrena então tudo o que é tido como sucesso aqui nesse mundo se torna alvo e objeto de obsessão olhemos para a maioria das igrejas e vejamos o que é tido como bençãos e honra por parte de Deus: sucesso na vida profissional e financeira, casamento bem sucedido e ter uma boa rede de amigos (influência).

A pessoa que obtiver tudo isso será considerada abençoada por Deus. Será um exemplo de servo bom e fiel já que Deus o está abençoando e honrando. Quem não tiver nada disso será considerado amaldiçoado, Deus o está castigando (está no deserto porque fez algo de errado), ou está em rebeldia.

Esses são os conceitos de bençãos e maldições dentro das igrejas. Sabemos pela própria Bíblia que isso é um equívoco terrível.  Em Filipenses 4,12 o apóstolo Paulo deixa claro que um cristão pode viver com pouco: “sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.” O próprio Jesus disse: “as raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.” (Lc.9,58)

O ser humano já é inclinado a idolatria e a situação piora ainda mais quando ela é incentivada sutilmente por pregações motivacionais centradas no que é sucesso para esse mundo. Além de incentivar a idolatria, essas mensagens, por óbvio, são incapazes de ajudar a identificar se a pessoa está acalentando um “bezerrinho de ouro” em seu coração.

Meus irmãos devemos ter muito cuidado com esses tipos de pregações que mais parecem palestras. Precisamos orar e pedir à Deus para nos mostrar se temos algo em nosso coração que está tomando o lugar de Deus. Precisamos urgentemente identificar e destruir quaisquer ídolos em nossas vidas e rejeitarmos completamente todo e qualquer incentivo a isso, por melhor que pareça a intenção da pessoa.

Que Jesus nos conceda Graça e força para permanecermos somente Nele.

 

 

 

domingo, 14 de novembro de 2021

Ídolos do coração: inveja como consequência

 No texto anterior a história de Raquel foi abordado e podemos identificar que a maternidade foi o ídolo dessa mulher. Em Gn. 30,1 é apontado uma das consequências dessa idolatria: inveja. “Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse à Jacó: dê-me filhos ou morrerei!”

Os desdobramentos provocados pela idolatria são vários e perigosos. A inveja é um deles. Um abismo (pecado) chama outro. Quando se constrói um ídolo para si e ainda não o possui, a obsessão começa a fazer parte da vida da pessoa. A cobiça pelo objeto de adoração é tanta que ela cai no buraco de algumas obras da carne, a saber: idolatria, discórdia, ódio, ciúmes, ira, inveja (Gl.5,19-21).

Uma pessoa obcecada por algo, perde a visão espiritual e passa a andar conforme o que ela vê. As circunstâncias a domina a levando a caminhar em círculos: quanto mais se pensa sobre o desejo mais anseia por ele, quanto mais anseia mais pensa. É um ciclo vicioso que provoca mais e mais cegueira espiritual no idólatra.

A vida de alguém que nutre um ídolo escondido no coração se torna insuportável quando ele é confrontado com a vida de outro que possui o que ele mais deseja. Raquel era confrontada pela fertilidade de Lia, sua irmã. Isso desencadeou a inveja, discórdia, ciúme. Essas obras da carne se fortalecem de tal forma que consolida ainda mais a idolatria. Isso destrói a vida espiritual de uma pessoa. O relacionamento com Deus se torna completamente frágil porque mais cedo ou mais tarde, o idólatra se voltará contra Ele. A resposta de Jacó à Raquel vai nessa direção. Em Gn. 30.2, ele responde: “por acaso estou no lugar de Deus que a impediu de ter filhos?” Quem é o responsável pela infertilidade de Raquel segundo o marido dela? Deus.

Isso acontece diariamente até os dias de hoje. Deseja-se muito algo, torna-se obcecado por ele e Deus passa a ser o responsável direto pelo infortúnio da não realização do desejo. Quando se chega ponto, o relacionamento com Deus se deteriora rapidamente, tornando a pessoa ainda mais idólatra. As consequências são desastrosas.

O ser humano sempre teve que domar a sua tendência a idolatria, controlar o ímpeto de criar falsos deuses, mas, atualmente tem sido muito mais difícil enfrentar tudo isso. Ao se deparar nas muitas igrejas que exaltam o triunfalismo, o evangelho coach, as mensagens de autoajuda e a confissão positiva, as pessoas tendem a acreditar que elas são o centro e Deus tem a obrigação de providenciar tudo o que elas desejam.

Esse tipo de evangelho fortalece o Eu e promove a idolatria. Tira Deus do centro e insere o homem. É um evangelho antropocêntrico onde Deus é o gênio da lâmpada. Ao abandonar a mensagem cristocêntrica, cai-se na mentira de que é possível encontrar felicidade em algo ou alguém que não Deus, e essa é a ilusão da qual flui toda a idolatria.

Toda pessoa que vive em idolatria em algum momento se tornará um grande invejoso. Todo invejoso se compromete com a discórdia. A discórdia gera a rebeldia que é feitiçaria. A pessoa tanto pode se rebelar contra o seu próximo quanto contra a Deus. Em 1Sm. 15,23 diz: “pois o rebelde é como pecado de feitiçaria...” A idolatria pode levar à feitiçaria (rebeldia). A pessoa para ter o que o seu coração mais deseja pode se rebelar contra os mandamentos estabelecidos por Deus. Além de idólatra, se torna feiticeiro.

Quantas implicações!!

Por isso vigiemos o nosso coração, peçamos à Deus para sondar o que há nele (Sl.139,23-24). Que a Palavra de Deus possa ser lâmpadas para os nossos pés (Sl.119,105) e que possamos ansiar por Deus de todo o nosso coração (Sl.42,1).

 

domingo, 7 de novembro de 2021

Ídolos do coração

 O título desse texto é o mesmo do livro da autora Elyse Fitzpatrick. Nesse livro é abordado sobre a idolatria escondida no coração das pessoas. Incentivo você a lê-lo. Será muito edificante para sua vida.

Hoje vou abordar mais especificamente a questão dos filhos, que foi um dos tópicos do texto anteriormente publicado nesse blog “transformando benção em maldição.  Elyse em um dos capítulos do seu livro abordou a idolatria de Raquel (esposa de Jacó). Vou trazer para cá um resumo do entendimento da autora e farei alguns apontamentos.

Elyse começa apontando a inclinação de Raquel à idolatria quando a filha de Labão rouba os ídolos da casa de seu pai. Essa cena é descrita em Gn. 31,19 “enquanto Labão tinha saído para tosquiar suas ovelhas, Raquel roubou de seu pai os ídolos do clã...” Ela estava saindo da sua vida segura ao lado do pai para o desconhecido, mesmo já sendo casada, ela continuou na propriedade de seu pai. O seu mundo teve pouca alteração. Com a decisão de Jacó, seu marido, de partir para longe de seu sogro, Raquel se viu num terreno inseguro. A insegurança e ansiedade expuseram a sua idolatria. Ela correu para os ídolos de seu pai em busca de conforto e segurança para esse momento de mudança em sua vida.

Esses ídolos eram tão importantes para Raquel que vemos no versículo 35 do mesmo capítulo 31, ela mentindo, ao pai para poder continuar com os ídolos roubados: “Raquel disse ao pai: não se irrite, meu senhor, por não poder me levantar em sua presença, pois estou com o fluxo das mulheres.” Claro que ele não encontrou! Raquel tinha-os colocado dentro da sela do seu camelo e estava sentada em cima, como é dito no versículo 34. Ela roubou e mentiu para o pai e enganou o marido como fica claro no versículo 32: “... ora, Jacó não sabia que Raquel os havia roubado”.

Por essa narrativa vemos a inclinação de Raquel a idolatria. Essa inclinação é vista de forma mais clara quando ela diz à Jacó: “dê-me filhos ou morrerei!” (Gn.30,1). Na história bíblica esse fato ocorre antes do roubo dos ídolos do pai. O roubo é a concretização da idolatria que já dominava o coração de Raquel. A fala “dê-me filhos ou morrerei!” é marcante demais porque a morte era melhor para ela do que continuar viva e estéril. (Gn.29,31). O que é mais trágico nesse relato é constatarmos que a idolatria a matou. A ideia adorada (maternidade) e objeto foco da adoração (filhos, no plural) acabaram por matá-la. Ela não se contentaria (como não se contentou mesmo) em ter um único filho. Mesmo nessa condição, Deus a ouviu “então Deus lembrou-se de Raquel. Deus ouviu o seu clamor e a tornou fértil... deu à luz a um filho... deu-lhe o nome de José (Gn.30,23). Nesse mesmo texto ela ainda afirma: “que o Senhor me acrescente ainda outro filho”. Ela com i seu filho desejado nos braços e não conseguiu ser grata pela benção alcançada. O foco continuou na sua obstinada meta: filhos!

Nesse texto não vemos Raquel agradecendo à Deus, mas a vemos afirmando “Deus tirou de mim a minha humilhação”. Isso não é agradecimento. O foco ainda é ela e a sua situação de competição com a irmã Lia.

Em Gn. 35,16 vemos que Deus atendeu o desejo dela de ter mais um filho. O fato de Deus nos atender nem sempre é bom! Esse é o caso. “Raquel começou a dar à luz com grande dificuldade. E, enquanto padecia muito, tentando dar à luz, a parteira disse-lhe: não tenha medo, pois você ainda terá outro menino. Já a ponto de sair-lhe a vida, quando estava morrendo deu ao filho o nome de Benoni mas o pai deu-lhe o nome de Benjamim. Assim morreu Raquel...” (Gn.35,16-19). No fim ela deu nomeou o filho como sendo “filho da minha aflição”. A alegria e prazer tão almejados foram transformados em aflição!

 

A mulher que disse: “dê-me filhos ou morrerei” (Gn.30,1), morreu em trabalho de parto (Gn.35,19).

Não é terrível essa situação? O que ela mais desejava (filhos) a levou à morte.

Voltemos ao roubo de ídolos. O roubo dos ídolos do pai foi depois que já havia tido o primeiro filho e antes que ela tivesse o segundo. No versículo 32 do capítulo 31 há uma profecia de Jacó de forma implícita: “quantos aos seus deuses, quem for encontrado com eles não ficará vivo”. Jacó declarou morte para quem roubou os ídolos do sogro. Num primeiro momento entendemos que a pessoa pega com os ídolos seria executada, mas se olharmos mais profundamente podemos ver uma sentença profética na vida de quem roubos aqueles ídolos.

Essa profecia implícita de Jacó se cumpriu. Raquel morreu pela realização do seu grande desejo: filhos.

Com essa narrativa sobre os fatos da vida de Raquel percebemos o quão perigoso e mortal é ter ídolos no coração. A história dessa mulher ainda nos apresenta outros pontos a serem explorados posteriormente: inveja (Gn.30,1), incentivo por terceiros a permanecer na idolatria (Gn.35,17), a postura de Jacó em relação as suas esposas (Gn.30,15-16) e depois aos seus filhos (Gn.37,3-4).

A idolatria mata! A idolatria transforma bençãos em maldições. Nada de frutífero procede desse mal.

Aqui vemos de forma detalhada como uma obsessão por um filho (ideia de maternidade) pode ser considerada um desejo idólatra. Não importa se é da cultura, se o desejo é legítimo já que é uma benção, se pode glorificar a Deus com o cumprimento daquele desejo (sonho). Se ele (desejo/sonho) tomou o lugar de Deus então é idolatria e consequentemente deixou de ser benção e passou a ser maldição.

Tomemos cuidado para não transformarmos benção em maldição. A nossa oração diária deve ser: Pai, mostra-me se há ídolos escondidos em meu coração e me liberte deles, se houver.

Que Deus nos dê entendimento e discernimento para identificarmos qualquer coisa em nossas vidas que estejam usurpando o lugar que é de Deus.

 

Indicação de livro:

FITZPATRICK, Elyse. Ídolos do coração: aprendendo desejar somente a Deus. 2. ed. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2017. 256 p.

 

domingo, 31 de outubro de 2021

Transformando benção em maldição

 “Naquele dia o livro de Moisés foi lido em alta voz diante do povo, e nele achou-se escrito que nenhum Amonita ou moabita jamais poderia ser admitido no povo de Deus, pois eles, em vez de darem água e comida aos israelitas, tinham contratado Balaão para invocar maldição sobre eles. O nosso Deus, porém, transformou a maldição em benção” (Neemias 13, 1-2).

A última parte desse texto é repetida incansavelmente nos púlpitos, vídeos, mensagens de texto: “Deus transforma maldição em benção”. A reflexão de hoje irá percorrer o caminho inverso: e quando nós transformamos as bençãos que Deus nos permite alcançar em maldição? Isso é possível? Sim, é possível!

Nesse texto serão apresentados dois fatos que são tidas como bençãos incontestáveis que podem se tornar maldição na vida de alguém. Existem outros, mas por hora somente esses dois serão abordados.

Primeiro: filhos. Em Salmo 127,3 está escrito “os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que Ele dá”. Está claro que ter filhos é uma dádiva concedida por Deus à muitas pessoas. Em Dt. 28,4 é dito que “os filhos do seu ventre serão abençoados” e em Gn. 1,28 é a prova dessa benção: “Deus os abençoou e lhes disse: “sejam férteis e multipliquem-se...” Deus disse isso ao homem e a mulher, conforme o versículo anterior desse texto citado.

Concordamos que ter filhos é uma benção diante do exposto pela própria Bíblia. Então quando tê-los se torna uma maldição? Quando os pais transformam os filhos em “bezerro de ouro”. Quando o filho (s) se torna objeto de adoração, tornando os pais (ou um deles) em idólatras. A maldição aqui é a idolatria. Vamos ver o que significa a palavra idolatria no dicionário: 1) culto que se presta a ídolos; 2) amor excessivo, admiração exagerada. Essa palavra é de origem grega eidolon , ídolo, e latreuein , adorar. Esse termo refere-se à adoração ou veneração aos ídolos ou imagens, quando é usado em sentido primário. Se usado num sentido mais lato, pode indicar a veneração ou adoração a qualquer objeto, pessoa, instituição, ambição (idéia) que toma lugar de Deus, de que lhe diminua a honra que lhe devemos. Ficaremos com o sentido lato da palavra idolatria para trabalharmos o tema nesse texto: “adoração a pessoa, ideia”.

A partir do momento que uma mãe ou pai ama exacerbadamente o seu “filho precioso”, caiu no pecado da idolatria. Como podemos diferenciar um amor genuíno ou um amor obsessivo? O amor obsessivo constrói uma espécie de parede ao redor da pessoa/relação na qual não há margem de manobra. É aquela mãe/pai que coloca o filho numa redoma de vidro onde somente ela/ele tem acesso. É uma relação de exclusividade, prioridade absoluta e extremamente controladora. Em contrapartida o amor genuíno promove o crescimento, desenvolvimento almejado a independência e maturidade do outro. É aquele amor que disciplina visando o amadurecimento. “Quem se nega a castigar seu filho não ama, quem o ama não hesita em disciplinar” (Pv. 13,24).

Quando há idolatria envolvida também há dificuldade de correção. O amor obsessivo é tão descontrolado que o filho se torna intocável, irrepreensível não importando o que ele faça. Quem vive essa situação está completamente mergulhado na idolatria mas não se dá conta. Justifica-se falando que é amor de mãe/pai, que é um cuidado a mais pela situação turbulenta do mundo. Dificilmente admitirão que estão na idolatria.

Outra benção que pode se tornar em idolatria (maldição): casamento. Segue exatamente os mesmos passos do exemplo anterior. É uma benção e está na Bíblia: “Deus declarou: não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda” (Gn. 2,18), no versículo 22 prossegue “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele”. O próprio Deus instituiu o casamento. Em Provérbios 18,22 está escrito “Quem encontra uma esposa encontra algo excelente; recebeu uma benção do Senhor”.

Como podemos ver, o casamento é uma benção de fato, mas ao se tornar o centro da vida de um dos cônjuges ou do casal, torna-se idolatria. Quando tudo passa a andar em torno do casamento e sua manutenção é um sinal de alerta. Muitos renunciam os preceitos estabelecidos por Deus em sua Palavra para agradar e satisfazer o cônjuge. Por que aquele casamento/cônjuge é muito mais importante do que Deus e Sua Palavra. Há aqueles que idolatram a ideia do casamento que flerta com a perfeição e se tornam ou se propõe a tornar um casal perfeito, pelo menos, na aparência. Fazem isso em nome de uma “glorificação ao Senhor”.  Vamos glorificar ao Senhor com o testemunho do nosso relacionamento. Veja, a intenção é maravilhosa, mas pode sim está havendo uma idolatria não só ao cônjuge, mas também a imagem de casamento abençoado. A famosa frase: “história de amor escrita pelo dedo de Deus”. Há muitos que veneram essa imagem/aparência dos relacionamentos e não percebem que é uma idolatria. Ela está escondia na justificativa: “estamos glorificando a Deus com o nosso relacionamento”. Isso tanto pode ser verdade como pode ser mentira. O grande problema é se for mentira! Porque estarão enfileirados no rol dos idólatras.

Apontei essas duas situações sobre filhos e casamentos porque são as ditas “vacas sagradas”, bezerros de ouro” da igreja evangélica. É muito difícil falar sobre a idolatria nessas áreas e sabemos que há. Não é abordado nos púlpitos das igrejas e isso pode estar levando muitos ao inferno. Não se iluda!!! Deus abomina qualquer tipo de idolatria. Ap. 22,15 “Fora ficam os cães, os que praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira.”

Como vimos no início do texto, a idolatria é muito mais que se prostrar diante de imagens feitas por mãos de homens. É amar exageradamente uma pessoa, uma ideia. Quem vive isso também é idólatra e ficará de fora do Reino de Deus como está escrito em Ap. 22,15.